Explosão de diagnósticos em jovens revela um dilema: estamos salvando vidas ou apenas descobrindo tumores que nunca causariam problemas?
Há câncer que não devem ser tratados? O que a ciência revela sobre o excesso de diagnósticos
O aumento acelerado de diagnósticos de câncer em pessoas com menos de 50 anos, observado em Portugal e em diversas regiões do mundo, tem levantado uma questão provocadora: estamos identificando mais casos porque realmente existe mais doença… ou porque estamos investigando demais?
Pesquisas recentes indicam que, para muitos tumores, a explosão de diagnósticos não veio acompanhada de aumento de mortes — o que sugere que inúmeros casos detectados jamais causariam qualquer problema ao longo da vida.
Há décadas, estudos apontam que nem todos os câncer são agressivos, nem têm potencial para se espalhar. Alguns tumores:
Regridem sozinhos,
Permanecem microscópicos,
Nunca provocam sintomas.
Autópsias revelam que muitas pessoas morrem com pequenos tumores que nunca souberam que tinham.
Próstata: Autópsias mostram que homens na faixa dos 20 anos já podem ter microtumores. Aos 70, metade dos homens negros e um terço dos homens brancos tinham câncer microscópico não detectado.
Tiroide: Um estudo finlandês encontrou tumores ocultos em um terço dos adultos — apesar de a mortalidade ser inferior a 1%.
O dilema: não existe ferramenta perfeita capaz de prever, no indivíduo, qual tumor será perigoso.
E após tratar, jamais saberemos se aquele câncer realmente precisava de intervenção.
O médico e pesquisador H. Gilbert Welch, da Harvard Medical School, propõe um método simples para separar alarmes reais de diagnósticos excessivos: comparar a curva de casos com a curva de mortes.
Se diagnósticos sobem e mortes sobem → há mais doença real.
Se diagnósticos sobem, mas mortes ficam estáveis → estamos detectando tumores indolentes.
Foi exatamente isso que aconteceu com o câncer de tiroide na Coreia do Sul, onde exames de rotina generalizados multiplicaram os diagnósticos sem qualquer impacto na mortalidade. Estimativas sugerem que 90% desses tumores nunca precisariam ter sido encontrados.
Welch analisou os tipos de câncer que mais têm aumentado em pessoas com menos de 50 anos nas últimas três décadas. Resultado:
Mesmo com explosão de diagnósticos.
Colorretal: Incidência sobe 2% ao ano; mortalidade sobe 0,5%.
Endométrio: Diagnósticos e mortes sobem na mesma proporção (≈2% ao ano).
Nesses dois tumores, o aumento parece refletir doença real e crescente.
Oncologistas alertam: nunca fizemos tantos exames como hoje.
TCs, ecografias e ressonâncias são mais sensíveis e acessíveis. Assim, lesões pequenas, que antes jamais seriam conhecidas, passam a ser vistas.
Dois problemas emergem:
O diagnóstico vira epidemia — sem que a doença verdadeira aumente.
O tratamento desnecessário traz riscos:
infertilidade,
cirurgias mutilantes,
sequelas permanentes,
quimioterapia sem necessidade,
impacto emocional e financeiro devastador.
Welch e outros autores defendem duas mudanças urgentes:
Menos exames em pessoas sem sintomas;
Mais cautela e menos agressividade na investigação de pequenas anomalias achadas por acaso.
Outra corrente da oncologia defende que o aumento dos diagnósticos é sim preocupante — e reflete mudanças agressivas no ambiente moderno:
toxinas ambientais,
exposição química,
obesidade crescente,
desequilíbrios no microbioma intestinal,
dietas ricas em ultraprocessados.
No câncer de endométrio, por exemplo, grande parte do aumento está diretamente ligado à obesidade.
A estratégia não é nova, mas ganha força: nem todo câncer precisa ser tratado imediatamente.
Em tumores indolentes — como muitos casos de próstata e tiroide — a conduta mais segura pode ser:
Acompanhar de perto
Adiar o tratamento
Intervir somente se houver sinais de progressão
O caso do PSA, nos EUA, é emblemático:
Diagnósticos triplicaram.
Tratamentos agressivos aumentaram.
A mortalidade ficou praticamente igual.
Hoje, especialistas em próstata consideram que mais da metade dos casos de baixo risco deve entrar em vigilância ativa, sem cirurgia ou radioterapia inicial.
No próximo conteúdo da TV Saúde, vamos explicar como funciona, na prática, a vigilância ativa — quem pode adotá-la, quais exames são necessários e por que essa abordagem está salvando pacientes de tratamentos agressivos sem comprometer a segurança.