Mais importante do que saber a densidade do osso é descobrir quem realmente corre risco de fraturar — e como a medicina já consegue antecipar esse futuro.
Durante décadas, a densitometria óssea foi considerada a principal ferramenta para avaliar a saúde óssea. O T-score passou a dividir os pacientes em categorias rígidas: normal, osteopenia e osteoporose.
Mas a prática clínica mostrou algo inquietante:
a maioria das fraturas não ocorre em pacientes com osteoporose, mas em pessoas com osteopenia.
Foi para responder a esse paradoxo que surgiu uma das ferramentas mais sofisticadas da medicina preventiva moderna: o FRAX.
O FRAX (Fracture Risk Assessment Tool) é um algoritmo desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde que estima o risco absoluto de fraturas nos próximos 10 anos.
Diferentemente da densitometria isolada, o FRAX não avalia apenas o osso. Ele analisa o paciente como um todo.
Entre os principais fatores considerados estão:
Idade
Sexo
Peso e altura
Histórico de fratura prévia
Fratura de quadril nos pais
Tabagismo
Uso prolongado de corticoides
Artrite reumatoide
Consumo excessivo de álcool
Densidade óssea do colo do fêmur (quando disponível)
O resultado final é um número claro:
probabilidade percentual de fratura nos próximos 10 anos
– para fratura maior (coluna, quadril, punho ou ombro)
– e especificamente para fratura de quadril.
Antes do FRAX, o tratamento era decidido quase exclusivamente pelo T-score.
Hoje, a pergunta mudou:
“Qual é o risco real de esse paciente fraturar?”
Dois pacientes com o mesmo T-score podem ter riscos completamente diferentes.
Um adulto jovem com osteopenia leve pode ter risco mínimo.
Um idoso de 75 anos com o mesmo T-score pode ter risco elevado de fratura grave.
É nesse ponto que o FRAX se torna decisivo: ele personaliza o risco.
Um dos maiores equívocos em saúde óssea é acreditar que apenas a osteoporose fratura.
Na prática:
A osteopenia é muito mais frequente
A maioria dos idosos está nessa faixa intermediária
O número absoluto de fraturas em osteopenia é maior
Quando associada a:
Idade avançada
Comprometimento do fêmur
Histórico de quedas
Perda muscular
a osteopenia passa a ser clinicamente perigosa.
E é exatamente esse grupo que o FRAX identifica.
Diretrizes internacionais recomendam iniciar tratamento farmacológico quando:
Risco de fratura maior ≥ 20% em 10 anos
ou
Risco de fratura de quadril ≥ 3% em 10 anos
Mesmo que o paciente tenha apenas osteopenia.
Essa mudança de paradigma é profunda:
Hoje se trata risco, não apenas densidade.
Entre todos os sítios avaliados, o colo do fêmur é o mais importante prognosticamente.
Por três motivos:
Prediz melhor fraturas graves
Está diretamente ligado à fratura de quadril
Entra como variável-chave no FRAX
Em idosos, valores próximos de −2,5 no fêmur, mesmo ainda classificados como osteopenia, frequentemente já representam alto risco clínico.
É nesse ponto que muitos tratamentos começam antes da osteoporose formal.
A fratura de quadril é considerada um dos eventos mais devastadores da geriatria:
Alta mortalidade no primeiro ano
Perda definitiva de autonomia em grande parte dos pacientes
Risco elevado de institucionalização
Prever esse evento antes que aconteça é um dos maiores avanços da medicina preventiva do envelhecimento.
E hoje isso é possível.
O FRAX representa uma mudança silenciosa, porém revolucionária:
Sai o modelo rígido baseado apenas em T-score
Entra o modelo de risco individualizado
Tratamentos passam a ser mais precisos
Fraturas potencialmente evitáveis deixam de acontecer
Não se trata mais apenas de medir ossos.
Trata-se de proteger vidas, autonomia e independência.
O FRAX transformou a osteopenia de um achado passivo em um instrumento ativo de prevenção.
Hoje, a medicina não espera o osso quebrar para agir.
Ela calcula, antecipa e intervém.
Em tempos de envelhecimento acelerado da população, essa capacidade de prever fraturas pode ser tão valiosa quanto preveni-las.