A meta global de reduzir 25% das mortes por câncer em 10 anos esbarra num paradoxo brasileiro: investimos em tratamentos caros, mas negligenciamos o que realmente funciona.
Enquanto o mundo se une em torno da ambiciosa meta de reduzir em 25% as mortes por câncer na próxima década, o Brasil enfrenta um paradoxo revelador: gastamos fortunas com tratamentos de última geração, mas investimos migalhas na única estratégia comprovadamente eficaz – a prevenção.
Dados do INCA revelam uma verdade inconveniente: 40% dos casos de câncer no Brasil poderiam ser prevenidos com mudanças comportamentais simples. Ainda assim, menos de 3% do orçamento federal para oncologia é destinado a programas preventivos estruturados.
"Estamos tentando enxugar gelo com a torneira aberta", afirma Dra. Beatriz Moreno, oncologista com 25 anos de experiência no SUS. "Cada paciente com câncer de pulmão avançado custa ao sistema R$ 150 mil em média. Com um décimo desse valor, poderíamos implementar programas antitabagismo que evitariam centenas de casos."
Enquanto o debate nacional se concentra em medicamentos caríssimos, uma revolução silenciosa acontece em municípios como Santos-SP e Curitiba-PR:
Santos reduziu em 31% a mortalidade por câncer colorretal em 5 anos através de um programa agressivo de rastreamento organizado. "Não inventamos nada", explica o secretário municipal de saúde. "Apenas implementamos o que a ciência já comprovou: chamamos a população de risco, fazemos os exames e garantimos o acompanhamento."
Curitiba criou o "Mapa do Câncer" – um sistema que cruza dados de atendimento primário com histórico familiar, criando alertas automáticos para profissionais da atenção básica quando um paciente preenche critérios de risco.
O professor Carlos Mendes, da Fiocruz, revela um dado surpreendente: "Nosso estudo mostrou que para cada real investido em campanhas de informação qualificada sobre sinais de alerta do câncer, economizamos R$ 47 em tratamentos evitados."
Ainda assim, o Brasil gasta 20 vezes mais em divulgar novos medicamentos do que em educar a população sobre prevenção.
Enquanto o Brasil debate a incorporação de medicamentos que custam até R$ 500 mil por paciente, países como a Finlândia alcançaram redução de 50% na mortalidade por câncer de colo de útero em 15 anos com uma estratégia simples:
Sistema organizado de rastreamento
Vacinação gratuita contra HPV
Informação massiva nas escolas
"O problema não é técnico, é político", analisa Mendes. "A prevenção não gera manchetes espetaculares. Um político prefere anunciar a chegada de um medicamento milionário do que a expansão de um programa de rastreamento que salvará mais vidas, mas de forma anônima."
A meta global de 10 anos representa uma corrida contra o relógio. Para o Brasil, especialistas apontam três ações imediatas que poderiam mudar o jogo:
Reforma no Financiamento: Destinar pelo menos 20% dos recursos para oncologia em prevenção estruturada
Sistema Nacional de Rastreamento: Modelo organizado, não oportunista
Literatura Oncológica Nacional: Conteúdo baseado em evidências em português acessível
"Temos uma escolha", conclui Dra. Moreno. "Continuar sendo heroicos no tratamento do desespero, ou nos tornarmos sábios na prevenção do evitável. A primeira opção faz manchetes. A segunda salva vidas."