Em um mundo instável, psicólogo explica por que aceitar a realidade, agir no presente e valorizar o cotidiano são atitudes essenciais para preservar a saúde emocional.
Quando o mundo deixa de parecer previsível e o futuro se torna nebuloso, muitas pessoas passam a viver em estado constante de alerta. Planos de longo prazo perdem sentido, a sensação de segurança diminui e surge uma pergunta silenciosa, porém persistente: como continuar sem se perder emocionalmente?
Segundo especialistas em psicologia, o esgotamento emocional tão comum hoje não é causado apenas pelas crises externas, mas pelo conflito entre expectativa e realidade. Durante muito tempo, acreditou-se que a situação “logo iria melhorar”. Quando isso não acontece, os recursos internos se esgotam. Aprender a viver de forma mais realista — sem ilusões, mas também sem desespero — tornou-se uma habilidade essencial.
Ao contrário do que se imagina, não é uma força de vontade abstrata que mantém as pessoas de pé. São elementos concretos e cotidianos: vínculos familiares, relações próximas, rituais simples, momentos de silêncio, atividades com significado e a consciência de que ainda é possível ajudar alguém.
Caminhadas, exercícios leves, contato com o corpo e hábitos que faziam parte da vida antes das crises funcionam como âncoras emocionais. Eles devolvem a sensação de estabilidade e ajudam o indivíduo a se reconectar com o presente.
Uma das mudanças mais profundas do nosso tempo é a dificuldade de planejar o futuro. O amanhã é incerto, e isso altera completamente a hierarquia das necessidades. Alimentação adequada, água, luz, descanso e segurança básica, antes vistos como garantidos, tornaram-se prioridades centrais.
Nos consultórios psicológicos, a queixa mais frequente é a exaustão. Muitas pessoas resistiram acreditando que bastava aguentar mais um pouco. Mas a realidade mostrou que viver apenas de expectativa leva ao colapso emocional. Sobrevive melhor quem aprende a concentrar energia no dia de hoje, fazendo o possível e reconhecendo seus próprios limites.
Não poder influenciar o cenário global não significa impotência. Adaptar-se à realidade, tornar a própria vida um pouco mais confortável e realizar pequenas ações diárias são formas eficazes de reduzir a ansiedade.
Atos simples — como preparar um café, ler algumas páginas de um livro, observar o céu ou organizar um espaço da casa — ajudam a mente a sair do excesso de preocupações e retornar ao estado de presença. A ação, mesmo pequena, devolve a sensação de controle.
O passado não pode ser mudado e o futuro ainda não existe. O único espaço real de transformação é o momento presente. É nele que se pode agradecer, respirar conscientemente, demonstrar afeto ou cuidar de si.
Também é fundamental proteger os próprios recursos emocionais. Escolher melhor as companhias, manter por perto pessoas com valores semelhantes e estabelecer limites claros evita um desgaste ainda maior. O humor, inclusive o humor ácido, surge como ferramenta legítima de sobrevivência, ajudando a aliviar a tensão e recuperar equilíbrio emocional.
Vivemos tempos que nos transformaram profundamente. Mas, junto com a perda das certezas, desenvolvemos uma habilidade essencial: viver o agora. Valorizar um dia comum, uma conversa sincera e uma pequena ação pode ser o maior gesto de resistência e cuidado com a saúde mental.
A vida não está adiada para depois. Ela está acontecendo agora.