O macaquinho que preferiu o abraço à comida: a lição emocional que a ciência confirmou

Publicado por: Feed News
24/02/2026 09:00:00
Exibições: 11
Punch, o macaquinho que encontrou no brinquedo o aconchego que a mãe biológica não pôde dar.
Punch, o macaquinho que encontrou no brinquedo o aconchego que a mãe biológica não pôde dar.

O que um vídeo viral de um macaquinho órfão no Japão tem a nos ensinar sobre saúde mental, criação de filhos e a necessidade humana mais básica de todas?

 

Você provavelmente já viu o vídeo. Um macaquinho minúsculo, com olhos que parecem carregar toda a solidão do mundo, agarrado a um orangotango de pelúcia como se fosse sua tábua de salvação. Ele se chama Punch, mora no zoológico de Ichikawa, no Japão, e se tornou uma sensão global nos últimos dias.

Mas Punch não é apenas "mais um bichinho fofo da internet". Sua história é um espelho — e um espelho desconfortável.

Abandonado pela mãe e rejeitado pelo grupo, Punch recebeu dos tratadores um substituto: um boneco macio da IKEA. E abraçou-se a ele como se fosse a coisa mais importante do mundo. Mais importante que comida. Mais importante que água. Mais importante que qualquer outra coisa que o zoológico pudesse oferecer.

 

Por quê?

A resposta está num laboratório dos anos 1950, do outro lado do mundo, e mudou para sempre o que sabemos sobre o coração humano — e sobre como criamos nossos filhos.

 

O experimento que ninguém ousaria repetir hoje

Harry Harlow era um psicólogo americano com uma pergunta incômoda na cabeça. Estamos nos anos 1950, e a teoria dominante na psicologia era o behaviorismo: a ideia de que os bebês se apegam a quem os alimenta. Pura troca biológica. Você me dá comida, eu me agarro a você.

 

Harlow desconfiava que era mentira.

Ele pegou filhotes de macacos rhesus recém-nascidos e os separou de suas mães. Colocou-os em uma gaiola com duas "mães" artificiais. Uma era feita de arame frio, mas tinha uma mamadeira escondida — comida à vontade. A outra era um bloco de madeira envolto em pano felpudo, macia, quente ao toque, mas sem nenhum alimento.

A previsão behaviorista era clara: os filhotes passariam o tempo com a mãe que alimenta.

 

Harlow observou o oposto.

Os macaquinhos passavam até 18 horas por dia agarrados à mãe de pano. Buscavam-na quando estavam assustados. Corriam para ela como quem corre para casa. A mãe de arame só era visitada quando a fome apertava — e assim que saciados, voltavam correndo para o conforto do tecido felpudo.

Harlow havia descoberto algo monumental: o contato confortante, o aconchego, a segurança emocional não são "luxos" do desenvolvimento. São necessidades básicas. Tão básicas quanto respirar.

 

O que isso tem a ver com Punch — e com você?

Punch não sabe quem foi Harry Harlow. Nunca ouviu falar de behaviorismo ou teoria do apego. Mas seu corpo sabe. Seu instinto sabe.

Quando a mãe verdadeira o abandonou, Punch poderia ter se conformado com a comida que os tratadores oferecem. Comida ele certamente tem. Água também. Abrigo contra o frio e a chuva — tudo isso o zoológico provê.

 

Mas não era suficiente.

Punch buscava outra coisa. Buscava o que os macaquinhos de Harlow buscavam: um lugar macio onde pudesse se sentir seguro. Um lugar que não fosse apenas fisicamente confortável, mas emocionalmente estável. Um lugar que, mesmo sendo um simples boneco de pelúcia, pudesse substituir — ainda que imperfeitamente — o calor que a natureza planejou que ele recebesse da mãe.

A reação do público aos vídeos de Punch também revela algo sobre nós mesmos.

Por que nos comovemos tanto? Por que paramos para assistir, compartilhar, comentar? Talvez porque, no fundo, reconheçamos ali uma verdade que carregamos desde o berço: todos nós precisamos de um lugar macio onde cair.

 

A ciência do apego e a saúde para a vida inteira

As descobertas de Harlow abriram caminho para o trabalho de John Bowlby e Mary Ainsworth, que desenvolveram a Teoria do Apego — hoje um dos pilares da psicologia do desenvolvimento.

Sabemos, graças a eles, que crianças que recebem não apenas alimento, mas afeto consistente, atenção amorosa e segurança emocional, desenvolvem o que chamamos de "apego seguro". Crescem mais confiantes, mais resilientes, mais capazes de lidar com frustrações e de construir relacionamentos saudáveis na vida adulta.

O oposto também é verdadeiro. Crianças privadas de afeto — mesmo que bem alimentadas, mesmo que com todas as necessidades físicas atendidas — podem desenvolver apego inseguro, ansioso ou desorganizado. As marcas disso carregam-se para sempre: dificuldade de confiar nos outros, medo do abandono, instabilidade emocional, maior propensão a transtornos como depressão e ansiedade.

Punch, sem querer, está nos dando uma aula sobre saúde mental.

 

E a ética nisso tudo?

É impossível contar essa história sem fazer uma pausa para uma pergunta incômoda: os experimentos de Harlow eram éticos?

Hoje, a resposta é clara: não.

Primatas são seres sencientes, capazes de sentir dor, medo, angústia. Separar filhotes de suas mães e submetê-los a situações de estresse extremo seria considerado cruel pela imensa maioria dos cientistas e pelo público em geral. Legislações de proteção animal no mundo inteiro — incluindo o Brasil — tornariam experimentos como esse impossíveis de serem realizados hoje.

O paradoxo é que devemos parte do que sabemos sobre a importância do afeto justamente a esses experimentos que hoje condenamos. A ciência avançou, e com ela nossa sensibilidade ética. Sabemos mais, e por saber mais, não precisamos repetir os erros do passado.

Punch nos lembra disso também. Sua história não é um experimento — é um acidente da vida, que os tratadores tentam amenizar com o melhor que têm: um boneco macio, cuidados veterinários, atenção. Mas nada substitui a mãe. E isso nos leva ao ponto talvez mais importante de todos.

 

O que podemos aprender com Punch?

A história do macaquinho órfão nos devolve a uma verdade simples e profunda, que a correria do dia a dia muitas vezes nos faz esquecer:

 

Amor não é complemento. Amor é base.

Numa cultura que valoriza a produtividade, que mede o sucesso pelo acúmulo de bens e conquistas, que muitas vezes trata o afeto como "frescura" ou "mimosidade", Punch aparece para nos lembrar do óbvio: um bebê que não é abraçado adoece. Uma criança que não se sente segura não aprende. Um adulto que não recebeu acolhimento suficiente pode passar a vida inteira procurando, de formas tortas, o abraço que não veio.

Para os profissionais de saúde, a lição é ainda mais direta. Cuidar de alguém — seja um recém-nascido, um idoso, um paciente em tratamento — não é apenas administrar medicamentos, monitorar sinais vitais, garantir nutrição adequada. É também oferecer presença. É oferecer escuta. É, sempre que possível, ser aquele lugar macio onde o outro pode descansar.

 

Punch hoje, nós amanhã

O zoológico de Ichikawa segue cuidando de Punch. A pelúcia continua ali, testemunha silenciosa de uma necessidade que a ciência demorou a reconhecer, mas que a sabedoria popular sempre conheceu: todo filhote precisa de colo.

Talvez a viralização de Punch seja, no fundo, um sintoma de algo maior. Talvez estejamos todos, em meio a guerras, crises econômicas, polarização política e solidões urbanas, carentes de um abraço. Carentes de um lugar macio onde possamos, ainda que por um instante, nos sentir seguros.

Punch encontrou o seu num boneco de pelúcia.

Que cada um de nós tenha a sorte de encontrar o nosso em pessoas de verdade.

 

Crédito: Este artigo foi inspirado em reportagem original de Gena Gorlin, professora de Psicologia da Universidade de Austin, publicada no The Conversation. A história de Punch e sua conexão com os experimentos de Harry Harlow nos lembram da importância irredutível do afeto para a saúde humana.

Vídeos da notícia

Imagens da notícia

Tags: