Especialistas e historiadores explicam: num país que mata cotidianamente, ocupar as ruas no Carnaval é ato de resistência. Mas a linha entre a vida e a morte pode ser mais tênue do que parece.
Por Ronny.Santos (EDITORIA DE SAÚDE PÚBLICA | TV SAÚDE)
Há uma cena repetida todos os anos nos hospitais públicos brasileiros durante o Carnaval: leitos de emergência lotados, famílias aos prantos em corredores, médicos exaustos costurando corpos e salvando vidas que, horas antes, pulavam ao som de um trio elétrico.
Enquanto isso, nas ruas, milhões dançam como se fossem imortais.
Coincidência? Não. É a manifestação de uma contradição profunda que define o Carnaval brasileiro: a mesma energia que afirma a vida pode, em um instante, entregar-se à morte.
A Folha de S.Paulo trouxe recentemente (17/2/2026) a voz de um historiador que sintetiza essa ambiguidade: "Em um Brasil marcado para morrer, Carnaval é uma forma de afrontar a morte". A frase ecoa como um manifesto. Mas o que significa, de fato, "afrontar a morte" num país onde a morte é tão cotidiana e banalizada?
A TV Saúde ouviu historiadores, epidemiologistas, psicólogos sociais e profissionais da linha de frente da saúde pública para construir um retrato realista, profundo e necessário dessa relação complexa entre o brasileiro, o Carnaval e a mortalidade evitável.
Antes de entender o Carnaval, é preciso entender o país.
O Brasil é uma nação onde a morte chega cedo e de múltiplas formas. São 45 mil assassinatos por ano. Mais de 30 mil mortes no trânsito. Filas no SUS que custam vidas. Desigualdade que mata antes dos cinco anos de idade. Violência policial que ceifa jovens negros nas periferias.
"A morte no Brasil não é uma exceção; é uma presença constante", explica a antropóloga Marina Albuquerque, da UFRJ. "O cidadão comum convive com o luto, com o medo, com a sensação de que a qualquer momento pode ser a próxima vítima. Isso produz uma relação ambígua com a própria existência."
Nesse contexto, o Carnaval emerge como uma trégua. Uma pausa autorizada para esquecer, ainda que por alguns dias, que lá fora a vida é dura e a morte espreita.
"Ocupar as ruas no Carnaval é um ato político de afirmação da vida", prossegue a antropóloga. "É dizer: apesar de tudo, eu existo, eu resisto, eu mereço alegria. É uma afronta simbólica à morte social que o sistema nos impõe."
O problema, alertam os especialistas em saúde pública, é quando essa afronta simbólica se materializa em comportamentos que, de fato, matam.
"A mesma coragem de existir que leva o folião para a rua pode levá-lo a decisões perigosas", pondera Dr. Ricardo Mendes, epidemiologista da Fiocruz. "O álcool em excesso, a direção imprudente, o sexo desprotegido, a alimentação contaminada – tudo isso transforma a resistência cultural em vulnerabilidade real."
Os números não mentem. Durante o Carnaval:
As emergências registram aumento de até 30% nos atendimentos por acidentes de trânsito relacionados ao álcool.
As notificações de violência interpessoal (brigas, agressões, violência sexual) sobem significativamente.
Os casos de infecções sexualmente transmissíveis diagnosticados nas semanas seguintes à festa têm pico anual.
As doenças diarreicas agudas lotam postos de saúde, resultado da ingestão de água e alimentos contaminados.
"A morte que o historiador menciona não é apenas a morte social", reforça Dr. Ricardo. "É a morte literal. O folião que dirige bêbado não está afrontando o sistema; está afrontando a física. E a física sempre vence."
Por que pessoas que no dia a dia se cuidam, usam cinto de segurança, se protegem sexualmente e bebem com moderação se transformam na folia?
A psicologia social explica: o Carnaval cria uma "bolha de exceção" .
"O cérebro interpreta o ambiente festivo como um espaço de suspensão das regras", explica a psicóloga clínica Daniela Franco, especialista em comportamento de massa. "O anonimato na multidão, o álcool, a música alta, a liberação dos instintos – tudo isso desativa temporariamente os mecanismos de autocontrole. O folião se sente parte de um corpo coletivo imortal, onde as consequências individuais desaparecem."
Esse fenômeno tem nome na antropologia: communitas. É o estado de êxtase coletivo em que os indivíduos perdem a noção de si mesmos e se fundem com a multidão. Lindo, poético e profundamente perigoso quando combinado com álcool e decisões de risco.
"É como se o folião assinasse um pacto imaginário: 'só por esses dias, nada de ruim vai acontecer comigo'", completa Daniela. "Só que a realidade não assina pacto nenhum."
Se o Carnaval é resistência, e se a morte é real, qual o caminho?
A resposta, segundo os especialistas ouvidos pela TV Saúde, não está em abolir a festa, mas em integrar a consciência à euforia.
"Não queremos que o povo deixe de pular Carnaval. Queremos que o povo volte para contar a história", resume Enfermeira Socorro Lima, que há 15 anos trabalha em UTIs durante o período momesco. "Todo ano vejo famílias destruídas por algo que poderia ter sido evitado. Um minuto de descuido, uma vida inteira de luto."
A proposta é que a "afronta à morte" seja política e existencial, não literal. Que o folião ocupe a rua, sim, mas:
Com consciência no trânsito: Se bebeu, não dirige. Ponto.
Com proteção sempre: Camisinha não é opcional; é extensão do corpo.
Com alimentação vigilante: Água de procedência conhecida, alimentos bem conservados.
Com respeito ao outro: O corpo alheio não é público. Não é não.
Com hidratação e descanso: Corpo exausto é corpo vulnerável.
"Resistir é também se cuidar", arremata a antropóloga Marina Albuquerque. "Devolver ao sistema um cadáver não é resistência; é derrota. A verdadeira vitória é voltar na segunda-feira, com o corpo cansado mas vivo, pronto para continuar lutando."
O Brasil é, sim, um país marcado para morrer. Marcado pela violência, pela desigualdade, pelo descaso. Mas é também um país que inventou o Carnaval como resposta a tudo isso.
A morte ronda, mas a vida insiste.
O que a TV Saúde propõe, neste artigo, é que a insistência na vida seja completa. Que a alegria não seja interrompida por uma fatalidade evitável. Que o folião entenda que ocupar a rua é um direito, mas voltar para casa é um dever – com quem ama, com quem precisa, com a própria história.
Afrontar a morte, no Carnaval de 2026, é:
Beber, mas não dirigir.
Beijar, mas se proteger.
Comer, mas com cuidado.
Ocupar, mas com respeito.
Viver, mas viver inteiro.
Porque a maior resistência que um povo pode oferecer a um sistema que o quer morto é sobreviver. É acordar na Quarta-Feira de Cinzas com a ressaca moral de quem se divertiu, não com o luto de quem perdeu.
É estar ali, na segunda-feira pós-Carnaval, pronto para continuar ocupando as ruas – não só na festa, mas na luta de todos os dias.
Viva o Carnaval. Viva a resistência. Viva, acima de tudo.
A TV Saúde preparou um guia rápido para você aproveitar a folia sem se tornar estatística:
| O que fazer | Como fazer |
|---|---|
| Beba, mas volte | Defina um motorista da vez ou use transporte por aplicativo. Álcool e direção são a roleta-russa mais mortal. |
| Beije, mas se proteja | Leve camisinha sempre. Não confie no "calor do momento". Previna ISTs e gravidez não planejada. |
| Coma, mas com cuidado | Prefira alimentos industrializados ou frutas descascadas. Desconfie de maioneses e quitutes expostos ao sol. |
| Hidrate-se | Beba água de garrafa lacrada. O calor + álcool + dança desidratam rápido. |
| Respeite | Não é não. Violência não é brincadeira. Denuncie. |
| Descanse | Corpo exausto adoece. Durma, se alimente bem, respeite seus limites. |
Lembre-se: a melhor fantasia é a que você tira no final da festa. A pior é a que te leva para uma maca.