Entre o Cuidado e o Controle: Quando o Amor Filial Ultrapassa a Linha da Violência Contra o Idoso

Publicado por: Feed News
19/02/2026 14:00:00
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O envelhecimento exige cuidado — mas nunca deve significar perda de dignidade ou autonomia.
O envelhecimento exige cuidado — mas nunca deve significar perda de dignidade ou autonomia.

O envelhecimento dos pais desafia vínculos, testa limites emocionais e pode, silenciosamente, ultrapassar a fronteira entre proteção e violação de direitos. Entenda onde está essa linha — e por que a lei brasileira está atenta a ela.

 

Entre o Cuidado e o Controle: Quando o Amor Filial Ultrapassa a Linha da Violência Contra o Idoso

O envelhecimento dos pais é uma das experiências mais complexas da vida adulta. Ele não chega com manual. Chega com exames médicos, esquecimentos, mudanças de humor, limitações físicas e decisões difíceis. Chega, muitas vezes, no meio da rotina já sobrecarregada dos filhos.

Mas há uma pergunta que poucas famílias fazem:

Quando o cuidado deixa de ser proteção e passa a ser violação?

No Brasil, essa linha não é apenas moral — é legal. E ela está definida no Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003).

 

O conflito que quase ninguém admite

Existe um fenômeno silencioso dentro de muitos lares: o desgaste do filho cuidador.

A chamada “responsabilidade filial” — um dever culturalmente construído — faz com que muitos filhos assumam os cuidados sem preparo técnico, sem apoio psicológico e sem divisão equilibrada de tarefas entre irmãos.

Segundo levantamento da Fundação Seade (2023), cerca de 90% dos cuidadores de pessoas com demência em São Paulo são mulheres. O dado revela uma sobrecarga de gênero estrutural.

 

O resultado?

Exaustão crônica

Culpa permanente

Irritação reprimida

Decisões tomadas no impulso

E, em alguns casos, comportamentos que configuram violência — mesmo quando não há intenção explícita de ferir.

 

A violência invisível dentro de casa

Quando se fala em maus-tratos contra idosos, muitos imaginam agressões físicas. Porém, a forma mais comum de violência é sutil.

Ela aparece como:

Infantilização (“Você não entende mais nada.”)

Controle financeiro sem consentimento

Impedimento de sair de casa

Decidir tratamentos sem ouvir o idoso

Ridicularizar esquecimentos

Ameaças veladas de institucionalização

O artigo 4º do Estatuto do Idoso é claro: nenhum idoso será objeto de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão.

O artigo 98 tipifica como crime expor o idoso a condições desumanas ou degradantes.

O problema é que muitas dessas situações acontecem sob o rótulo de “estou fazendo isso para o seu bem”.

 

Autonomia não é concessão — é direito

Um erro frequente nas famílias é tratar autonomia como algo que o filho “permite”.

Enquanto houver capacidade cognitiva preservada, o idoso tem direito de:

Escolher onde morar

Decidir sobre seu dinheiro

Aceitar ou recusar tratamentos

Manter hábitos compatíveis com sua segurança

Retirar essa autonomia sem base médica ou judicial pode configurar violação de direitos.

A resistência que muitos filhos chamam de “teimosia” muitas vezes é apenas medo de perder identidade, função social e sentido de vida.

 

O risco da medicalização sem diálogo

Outro ponto crítico é a gestão de medicamentos.

Idosos frequentemente convivem com:

Polifarmácia

Interações medicamentosas

Efeitos colaterais cumulativos

Decidir ajustes de medicação sem acompanhamento adequado ou sem explicar ao idoso o que está sendo administrado compromete não apenas a saúde, mas também a dignidade.

Cuidar não é substituir a vontade do outro.
É garantir segurança com respeito.

 

Quando o cuidador também precisa de cuidado

É essencial afirmar: nem todo filho que ultrapassa limites é perverso. Muitos estão esgotados.

O Brasil ainda carece de:

Políticas públicas robustas de suporte ao cuidador

Apoio psicológico acessível

Programas de orientação familiar preventiva

Sem rede de apoio, o risco de negligência por exaustão aumenta.

Mas exaustão não isenta responsabilidade legal.

 

Planejamento: a prevenção que quase ninguém faz

Famílias que conversam antes da crise lidam melhor com o envelhecimento.

Planejamento envolve:

Conversar sobre desejos futuros

Organizar procurações e diretrizes antecipadas

Discutir possibilidades de moradia

Avaliar divisão justa de responsabilidades

Infelizmente, no Brasil, essas conversas costumam acontecer apenas após uma internação ou diagnóstico grave.

E aí, decisões são tomadas sob estresse — o pior cenário possível.

 

A maioria dos casos acontece dentro de casa

Dados nacionais indicam que a violência contra idosos ocorre majoritariamente no ambiente familiar.

Isso torna o tema delicado, mas urgente.

Em caso de suspeita de violência, é possível denunciar pelo Disque 100, canal nacional de direitos humanos.

O silêncio protege o agressor.
A informação protege o idoso.

 

Entre o amor e o limite

O envelhecimento não transforma pais em filhos.
Eles carregam décadas de história, valores e experiências.

O desafio da família moderna não é apenas cuidar.
É aprender a cuidar sem controlar.

O verdadeiro cuidado:

Respeita

Escuta

Dialoga

Compartilha decisões

Reconhece limites próprios

O envelhecimento é inevitável.
A violência, não.

E em um país que envelhece rapidamente, entender essa diferença não é apenas uma questão familiar — é uma responsabilidade social.

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