Estudo de mais de duas décadas indica que exercícios mentais específicos, praticados por poucas semanas, podem atrasar o diagnóstico de demência — especialmente quando associados a um estilo de vida saudável.
A demência é hoje um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI. Com o aumento da expectativa de vida no Brasil e no mundo, cresce também o número de casos de doença de Alzheimer e outras síndromes demenciais. Diante desse cenário, uma pergunta se torna urgente: é possível reduzir o risco de desenvolver demência?
Um estudo conduzido pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) trouxe uma resposta promissora: um programa estruturado de treinamento cognitivo foi associado a uma redução de 25% no risco de demência ao longo do tempo.
Mais do que um dado estatístico, esse resultado aponta para uma estratégia prática, acessível e baseada em evidências científicas.
A pesquisa acompanhou adultos com mais de 65 anos por mais de 20 anos — um dos acompanhamentos mais longos já realizados nessa área. Os participantes foram divididos em três tipos de treinamento cognitivo:
Treinamento de memória
Treinamento de raciocínio
Treinamento de velocidade de processamento de informações visuais
Entre esses, o que apresentou melhores resultados foi o treinamento focado na velocidade de processamento, especialmente na capacidade de reconhecer objetos rapidamente sob estímulo visual.
Esse grupo foi o único em que se observou atraso significativo no diagnóstico de demência — sobretudo entre aqueles que realizaram sessões de reforço adicionais ao longo do tempo.
A velocidade de processamento está relacionada à eficiência com que o cérebro interpreta, integra e responde às informações do ambiente.
Na prática, ela influencia atividades como:
Dirigir com segurança
Tomar decisões rápidas
Identificar perigos
Lidar com múltiplos estímulos simultaneamente
Com o envelhecimento, essa capacidade tende a diminuir. O treinamento específico parece atuar fortalecendo circuitos neurais envolvidos na atenção, percepção e resposta rápida — áreas frequentemente comprometidas nos estágios iniciais da demência.
Segundo o diretor do NIH, Jay Bhattacharya, exercícios cerebrais simples realizados por algumas semanas já demonstraram impacto mensurável na preservação da saúde mental e da independência funcional.
O protocolo aplicado no estudo começou em 1999 e envolvia:
Sessões de 60 a 75 minutos
Duas vezes por semana
Durante 5 a 6 semanas
Alguns participantes receberam sessões adicionais após 11 e 35 meses.
Um ponto crucial: a dificuldade das tarefas aumentava progressivamente, adaptando-se ao desempenho individual. Esse princípio — chamado de treinamento adaptativo — é fundamental para estimular a neuroplasticidade.
Ou seja, o cérebro precisa ser desafiado de forma contínua e personalizada para fortalecer suas conexões.
O cérebro humano mantém capacidade de adaptação ao longo da vida. Essa característica, conhecida como neuroplasticidade, permite que novos circuitos neurais sejam formados em resposta a estímulos adequados.
Treinamentos cognitivos estruturados funcionam como “academia para o cérebro”, promovendo:
Maior eficiência neural
Compensação de perdas naturais do envelhecimento
Retardo no aparecimento de sintomas clínicos
No entanto, como destacou Richard Hodes, diretor do Instituto Nacional sobre Envelhecimento (NIA), os mecanismos exatos ainda precisam ser aprofundados em novas pesquisas.
Os pesquisadores ressaltam que o melhor resultado ocorre quando o treinamento mental é associado a um estilo de vida saudável.
As evidências atuais indicam que a prevenção do declínio cognitivo envolve múltiplos fatores:
Atividade física regular
Alimentação equilibrada
Controle da pressão arterial e do diabetes
Sono adequado
Engajamento social
Portanto, o treinamento cognitivo deve ser entendido como parte de uma estratégia integrada de saúde cerebral.
Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, iniciativas de prevenção ganham importância estratégica.
Programas de estimulação cognitiva podem ser incorporados:
Em centros de convivência para idosos
Em unidades básicas de saúde
Em plataformas digitais
Em programas corporativos de envelhecimento ativo
A boa notícia é que não se trata de intervenções invasivas ou medicamentosas, mas de estímulos mentais estruturados e baseados em ciência.
Reduzir em 25% o risco de demência não é um detalhe estatístico — é um avanço significativo em saúde pública.
O estudo mostra que pequenas intervenções, aplicadas no momento certo e com método adequado, podem gerar impacto duradouro.
A prevenção da demência não depende apenas de genética. Ela envolve comportamento, estímulo cerebral e estilo de vida.
E a ciência começa a demonstrar que nunca é tarde para começar.