Estudo inédito com dados do SUS comprova eficácia real da vacina.
Especialistas alertam que queda na cobertura vacinal pode colocar em risco o progresso alcançado contra o quarto tipo de câncer mais comum entre mulheres.
Um estudo inédito, realizado com dados do Sistema Único de Saúde (SUS) e publicado na respeitada revista científica The Lancet Global Health, trouxe uma excelente notícia para a saúde pública brasileira: a vacinação contra o HPV está funcionando de forma robusta no Brasil, reduzindo drasticamente a incidência de câncer de colo do útero entre mulheres jovens.
A pesquisa, que analisou dados de cerca de 16 milhões de mulheres entre 20 e 24 anos, revelou que o grupo elegível para a vacinação apresentou uma redução de 58% nos casos de câncer de colo do útero e uma queda ainda mais expressiva de 67% nas lesões pré-tumorais (NIC3) em comparação com mulheres não vacinadas . Este é um marco, pois é uma das primeiras evidências concretas do impacto da vacina em um país de renda média e com dimensões continentais como o Brasil, onde desafios de acesso à saúde e desigualdades sociais são significativos .
Para chegar a esses números, os pesquisadores do estudo, liderados pelo epidemiologista brasileiro Thiago Cerqueira-Silva, compararam diferentes grupos de mulheres de acordo com o ano de nascimento. As mulheres nascidas entre 2001 e 2003, que foram totalmente elegíveis para a vacinação quando adolescentes, apresentaram uma incidência de câncer aproximadamente três vezes menor do que as nascidas entre 1994 e 1998, que não tiveram acesso ao imunizante .
A eficácia observada no Brasil se alinha aos resultados de países de alta renda, como a Inglaterra, que já não registra mortes por câncer de colo do útero em mulheres com menos de 24 anos . "O estudo oferece evidência concreta de que a vacina contra o HPV funciona na prevenção do câncer de colo do útero. Pela primeira vez, conseguimos observar esse impacto em um país como o Brasil, onde há desigualdades e desafios de acesso à saúde", celebrou Cerqueira-Silva, em entrevista à revista Pesquisa FAPESP .
É importante destacar que o efeito protetor foi proporcional à cobertura vacinal. Em grupos onde a vacinação foi parcial, a redução de casos foi menor (39% para câncer e 54% para lesões) . Esse dado é um alerta crucial.
Apesar do sucesso inicial, o Brasil enfrenta um desafio preocupante: a queda na cobertura vacinal. Após um lançamento bem-sucedido do programa em 2014, que alcançou cobertura próxima a 100%, campanhas de desinformação e o movimento antivacina contribuíram para uma redução significativa nos números . Em 2022, a cobertura para meninas ficou em torno de 75% e para meninos em apenas 50%, muito abaixo do ideal .
A meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a eliminação do câncer de colo do útero como problema de saúde pública é vacinar 90% das meninas até os 15 anos . O Brasil está distante desse patamar, colocando em risco o progresso alcançado.
Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda a vacinação em dose única para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, tanto meninas quanto meninos, disponível gratuitamente em todas as salas de vacina do SUS . Além disso, a vacina é oferecida em esquemas específicos para pessoas imunossuprimidas, vítimas de violência sexual e usuários de PrEP, entre outros grupos .
É fundamental entender que a vacina é a principal ferramenta de prevenção primária, mas o cuidado não para por aí. O Brasil está em um processo de atualização do rastreamento do câncer de colo do útero. Atualmente, o exame Papanicolau é a base da detecção precoce . No entanto, o Ministério da Saúde incorporou recentemente ao SUS o teste molecular para detecção do HPV oncogênico, que é mais sensível e deverá substituir o citopatológico como exame de rastreamento primário nos próximos anos .
O teste molecular do HPV é capaz de identificar a presença do vírus de alto risco antes mesmo do surgimento de alterações celulares, permitindo um acompanhamento mais precoce e eficaz. A expectativa é que a nova tecnologia esteja disponível em toda a rede pública até 2026 .
A eliminação do câncer de colo do útero é um objetivo possível, mas que depende de uma combinação de fatores: alta cobertura vacinal, rastreamento de qualidade e, acima de tudo, o combate à desinformação que ameaça minar décadas de avanço científico.
"Os resultados do estudo brasileiro são animadores e provam, com dados da nossa realidade, que a vacina contra o HPV é uma ferramenta poderosa e segura. No entanto, o simples fato de a vacina existir não é suficiente. Precisamos, com urgência, recuperar as altas coberturas vacinais que tivemos no início do programa. A vacinação de meninos e meninas entre 9 e 14 anos é um ato de amor e responsabilidade, protegendo não apenas o indivíduo, mas toda uma geração de um câncer que é prevenível. Não podemos permitir que o movimento antivacina e as fake news coloquem em risco a saúde das nossas crianças e adolescentes."
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