Exame Galleri, que prometia revolucionar o rastreamento de dezenas de tumores, não atinge objetivo principal em estudo britânico e acende alerta na comunidade médica.
A promessa era simples e poderosa: uma única coleta de sangue capaz de identificar mais de 50 tipos de câncer em estágios iniciais, mudando para sempre o jogo da oncologia. Mas um estudo clínico em larga escala, realizado no Reino Unido, acaba de colocar um balde de água fria nessa narrativa.
O tão badalado teste Galleri, desenvolvido pela empresa Grail, não conseguiu cumprir sua missão principal. As conclusões da pesquisa, que envolveu mais de 140 mil voluntários, indicam que o exame não foi eficaz em reduzir significativamente o número de casos de câncer diagnosticados em estágios avançados (III e IV).
Mas o que isso significa para o futuro da detecção precoce? E, mais importante, para você, que se preocupa com a própria saúde? Vamos destrinchar os detalhes dessa história que está sacudindo a comunidade científica.
Imagine um exame de rotina, simples como um hemograma, capaz de farejar fragmentos de DNA de células tumorais circulando na corrente sanguínea. Essa é a tecnologia por trás do Galleri, que já está disponível nos Estados Unidos por US$ 949 (cerca de R$ 5.500), mesmo sem a aprovação final da agência reguladora americana (FDA).
O estudo britânico, realizado em parceria com o sistema público de saúde do país (NHS), acompanhou por três anos 142 mil pessoas saudáveis entre 50 e 77 anos. Enquanto parte do grupo fez o exame em três ocasiões, a outra seguiu o rastreamento tradicional.
A expectativa era que o teste Galleri detectasse tumores silenciosos ainda no início, permitindo intervenções menos agressivas e aumentando as chances de cura. No entanto, ao final do acompanhamento, os pesquisadores não encontraram uma diferença estatisticamente relevante na quantidade de tumores em fase avançada entre os dois grupos.
Diante do resultado negativo, a Grail adotou um discurso de cautela, afirmando que o "objetivo principal" não foi alcançado, mas destacando "outros indicadores promissores", como uma ligeira queda nos diagnósticos de estágio IV. A empresa promete apresentar dados mais detalhados na próxima primavera do hemisfério norte.
Para especialistas ouvidos pela comunidade médica internacional, porém, o recado é claro e serve como um importante alerta ao público. O problema não é apenas a eficácia questionável, mas o efeito colateral que esse tipo de tecnologia pode gerar: a falsa sensação de segurança.
Um resultado negativo no exame pode levar uma pessoa a abandonar métodos de rastreamento comprovadamente eficazes, como:
Mamografia (para câncer de mama);
Colonoscopia (para câncer de intestino);
Papanicolau (para câncer de colo de útero).
A detecção precoce do câncer é, sem dúvida, um dos maiores desafios da medicina. A busca por um "exame milagroso" é compreensível, mas os resultados desse estudo nos lembram de uma verdade fundamental: não existem atalhos mágicos quando o assunto é saúde.
Enquanto tecnologias como o Galleri não provam, com dados robustos, sua capacidade de salvar vidas, a prevenção ainda depende de pilares sólidos e menos glamorosos:
Exames de Rotina: Mantenha seus check-ups em dia e converse com seu médico sobre os exames de rastreamento indicados para sua idade e histórico familiar.
Métodos Consagrados: Não abra mão de procedimentos como a colonoscopia ou a mamografia com base em um exame de sangue experimental.
Estilo de Vida: Alimentação equilibrada, atividade física regular e não fumar continuam sendo as armas mais poderosas contra diversos tipos de câncer.
A falha do teste Galleri não encerra a busca por novas tecnologias, mas reforça a importância do método científico e do rigor clínico. Para o paciente, a lição que fica é: desconfie de promessas milagrosas e mantenha o foco no que já funciona.