Estudo publicado na Nature Communications revela que bactéria causadora de pneumonia e sinusite pode permanecer nos olhos por anos e estimular o acúmulo de proteínas tóxicas no cérebro.
Imagine um microrganismo invisível que entra no seu corpo por uma infecção comum, se instala silenciosamente nos seus olhos e ali permanece por décadas, lentamente contribuindo para a destruição das suas memórias. Parece roteiro de ficção científica, mas é exatamente o que um grupo internacional de pesquisadores acaba de descobrir.
Cientistas do Cedars-Sinai Medical Center, nos Estados Unidos, encontraram evidências surpreendentes de que a Chlamydia pneumoniae — mesma bactéria responsável por infecções respiratórias como sinusite e pneumonia — pode colonizar a retina humana e estar diretamente ligada ao desenvolvimento da doença de Alzheimer.
O estudo, publicado na conceituada revista Nature Communications, analisou as retinas de 104 voluntários divididos entre pessoas saudáveis, pacientes com comprometimento cognitivo leve e aqueles já diagnosticados com Alzheimer. Os resultados não deixam margem para dúvidas: nas amostras dos pacientes com a doença neurodegenerativa, os níveis da bactéria eram significativamente mais elevados.
Mas o que realmente chamou a atenção dos pesquisadores foi a correlação direta entre a quantidade de bactérias e a gravidade do declínio cognitivo. Quanto maior a presença da Chlamydia pneumoniae na retina, mais avançado era o quadro de demência apresentado pelo paciente.
A Chlamydia pneumoniae é conhecida pela medicina há décadas. O que ninguém sabia é que ela poderia se alojar no tecido ocular por longos períodos — possivelmente anos ou até décadas — sem necessariamente causar sintomas locais evidentes.
"Estamos diante de um cenário completamente novo", explica Maya Koronyo-Hamaoui, professora de Neurocirurgia e Neurologia do Cedars-Sinai e principal autora do estudo. "A bactéria não está apenas presente passivamente no olho. Ela desencadeia um processo inflamatório que estimula a formação da proteína beta-amiloide, considerada um dos principais marcadores biológicos do Alzheimer."
É como se a Chlamydia pneumoniae funcionasse como uma faísca que acende e mantém acesa uma fogueira silenciosa dentro do sistema nervoso. A inflamação crônica provocada pela presença bacteriana criaria um ambiente propício para que as proteínas tóxicas se acumulem e comecem a destruir os neurônios.
A pesquisa também trouxe à tona uma conexão intrigante com a genética. Os participantes portadores da variante APOE4 — um gene sabidamente associado ao Alzheimer — apresentaram níveis particularmente elevados da bactéria na retina.
Estudos anteriores já haviam demonstrado que pessoas com duas cópias do gene APOE4 têm risco quase certo de desenvolver a doença. Agora, os cientistas começam a entender o mecanismo: a predisposição genética combinada com a infecção bacteriana criaria uma tempestade perfeita para o surgimento da neurodegeneração.
"Isso não significa que toda pessoa com essa variante genética desenvolverá Alzheimer, nem que a bactéria sozinha cause a doença", pondera a pesquisadora. "Mas a combinação dos dois fatores parece criar um cenário de risco muito maior do que se imaginava."
Se os olhos são realmente o espelho da alma, como diz o ditado popular, talvez também sejam o espelho do cérebro. A descoberta abre possibilidades revolucionárias para o diagnóstico precoce do Alzheimer — algo que hoje ainda é um dos maiores desafios da medicina.
Atualmente, o diagnóstico definitivo da doença só pode ser confirmado em exames de imagem cerebral (caros e nem sempre acessíveis) ou após a morte, em autópsia. Quando os sintomas cognitivos se manifestam, boa parte dos danos cerebrais já é irreversível.
A equipe de pesquisadores agora trabalha no desenvolvimento de técnicas não invasivas de exame de retina que possam detectar a presença da bactéria e os sinais inflamatórios associados a ela.
"Nosso objetivo é criar um método simples, rápido e acessível que possa ser incorporado aos exames oftalmológicos de rotina", revela Koronyo-Hamaoui. "Imagine que, durante uma consulta comum ao oftalmologista, seja possível avaliar também o risco de desenvolver Alzheimer décadas antes dos primeiros sintomas."
Além do diagnóstico precoce, a descoberta abre novas fronteiras terapêuticas. Se a bactéria realmente contribui para o desenvolvimento da doença, o uso de antibióticos específicos poderia, teoricamente, reduzir o risco ou retardar a progressão do quadro em pessoas com predisposição genética ou sinais iniciais da doença.
Os pesquisadores alertam, no entanto, que ainda é cedo para qualquer recomendação clínica. São necessários estudos mais amplos e de longo prazo para confirmar se a eliminação da bactéria teria efeito protetor contra o Alzheimer.
"Precisamos testar esses sinais em grandes populações para entender como eles se relacionam com a evolução da doença ao longo do tempo", explica a pesquisadora. "Estamos apenas no começo de uma jornada que pode transformar completamente a forma como encaramos o Alzheimer."
Para entender a importância da descoberta, é preciso dimensionar o impacto da doença de Alzheimer na sociedade atual. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, sendo a doença de Alzheimer responsável por 60% a 70% desses casos. No Brasil, estima-se que cerca de 1,2 milhão de pessoas convivam com alguma forma de demência, e o número não para de crescer com o envelhecimento da população.
O Alzheimer é uma doença cerebral progressiva que afeta memória, pensamento e comportamento. As alterações no cérebro podem começar 15 a 20 anos antes dos primeiros sintomas — o que torna o diagnóstico precoce tão crucial.
Embora a descoberta da bactéria no olho possa futuramente ajudar no diagnóstico precoce, é importante estar atento aos sinais que já conhecemos:
Dificuldade para lembrar informações recentes: esquecer conversas, compromissos ou eventos que acabaram de acontecer
Desorientação no tempo e espaço: perder a noção de que dia é hoje ou se perder em lugares conhecidos
Dificuldade para realizar tarefas cotidianas: problemas para preparar uma receita simples ou gerenciar contas
Alterações de linguagem: dificuldade para encontrar palavras ou acompanhar uma conversa
Mudanças de humor e personalidade: irritabilidade, apatia ou desconfiança sem motivo aparente
Perda de iniciativa: abandonar hobbies e atividades sociais que antes eram prazerosas
A equipe do Cedars-Sinai já planeja os próximos passos da investigação. Serão recrutados milhares de voluntários para acompanhamento de longo prazo, combinando exames oftalmológicos periódicos com avaliações cognitivas e testes genéticos.
"Estamos diante de uma oportunidade única de revolucionar a neurologia através da oftalmologia", entusiasma-se a pesquisadora. "O olho é a única parte do sistema nervoso central que podemos observar diretamente, sem procedimentos invasivos. É uma janela natural para o que acontece no cérebro."
Enquanto a ciência avança, fica a mensagem de esperança: talvez estejamos mais perto do que imaginamos de transformar o Alzheimer de uma sentença irreversível em uma doença que pode ser detectada precocemente, monitorada e, quem sabe um dia, prevenida.
Por enquanto, a recomendação dos especialistas é manter os exames oftalmológicos em dia — não apenas pela saúde dos olhos, mas também pelo que eles podem revelar sobre o resto do corpo. Quem diria que a chave para desvendar os mistérios do cérebro poderia estar literalmente diante dos nossos olhos?