Eles invadiram as redes sociais, viraram febre entre celebridades e são receitados como solução mágica para quem deseja perder peso rapidamente. Ozempic, Wegovy, Saxenda e Trulicity tornaram-se nomes conhecidos no Brasil e no mundo, sinônimos de revolução estética e controle do diabetes. Mas, por trás do sucesso de vendas, um cenário alarmante começa a se desenhar nos tribunais americanos: pacientes estão perdendo a visão e culpam exatamente esses medicamentos.
O que era para ser uma ferramenta no combate à obesidade pode estar escondendo um efeito colateral devastador. Estamos falando de neuropatia óptica isquêmica, uma condição grave que interrompe o fluxo sanguíneo para o nervo do olho e pode resultar em cegueira permanente. E os números são assustadores.
Nos Estados Unidos, a revolta dos pacientes chegou ao sistema judiciário. Mais de 70 processos foram abertos contra as gigantes farmacêuticas Novo Nordisk (fabricante do Ozempic e Wegovy) e Eli Lilly (produtora do Trulicity). A acusação é uníssona: as empresas não alertaram adequadamente sobre os riscos oculares.
Diante do volume de casos, a Justiça Federal americana tomou uma decisão rara e significativa: unificou todas as ações sob a responsabilidade de uma única juíza, Karen Marston. A medida, conhecida como processo multidistrital, é adotada em situações de emergência sanitária ou quando milhares de pessoas são afetadas por um mesmo produto, agilizando as investigações e julgamentos.
Mas por que tantas pessoas estão recorrendo à Justiça? A resposta está em um estudo recente realizado por pesquisadores da renomada Universidade de Harvard.
A pesquisa de Harvard acendeu o sinal vermelho na comunidade médica. Os cientistas descobriram que pacientes que utilizam agonistas GLP-1 – a classe química desses medicamentos – apresentaram quatro vezes mais diagnósticos de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterial (NOIAN) em comparação com usuários de outros tipos de medicação para diabetes.
Em termos simples: o risco de desenvolver uma doença que cega é quadruplicado. A NOIAN age como um "derrame" do olho. Quando o nervo óptico não recebe oxigênio suficiente, as células começam a morrer, e a visão se apaga, muitas vezes sem chance de recuperação.
Este não é o primeiro nem o único problema grave associado a esses medicanos. Antes mesmo das ações por cegueira, cerca de 3 mil processos já haviam sido centralizados acusando os laboratórios de negligência em relação à gastroparesia, popularmente conhecida como "paralisia do estômago". Nessa condição, o órgão perde a capacidade de se contrair e esvaziar, causando dores abdominais severas, vômitos e desnutrição.
O caso mais extremo, no entanto, ocorreu no Reino Unido. Uma mulher de 58 anos faleceu após usar injeções para obesidade. O laudo apontou falência múltipla dos órgãos, choque séptico e pancreatite – uma combinação letal que acende um alerta sobre os limites da segurança dessas substâncias quando usadas fora de controle rigoroso.
Como esses medicamentos agem no corpo para causar algo tão distante como um problema nos olhos? A resposta é complexa e ainda está sendo estudada, mas os cientistas têm hipóteses.
Os agonistas GLP-1 são hormônios sintéticos que imitam uma substância natural do nosso corpo. Eles retardam a digestão, controlam o açúcar no sangue e induzem a saciedade. No entanto, a rápida perda de peso e as flutuações bruscas de glicose podem afetar a delicada vascularização do nervo óptico. É como se o organismo, ao mudar tão rápido, deixasse áreas nobres como os olhos sem o suprimento adequado de sangue.
Em documentos oficiais entregues à Justiça, tanto a Novo Nordisk quanto a Eli Lilly negam veementemente as acusações. As empresas afirmam que os medicamentos passaram por rigorosos testes clínicos e que a segurança dos pacientes é prioridade. No entanto, os bulários atualizados e os estudos pós-comercialização (chamados de farmacovigilância) são justamente para identificar efeitos raros que só aparecem quando o remédio é usado por milhões de pessoas.
No Brasil, Ozempic e seus similares também são amplamente vendidos, muitas vezes de forma indiscriminada em farmácias ou por prescrições estéticas sem o devido acompanhamento médico. A popularidade é tanta que o país enfrenta recorrentes crises de desabastecimento, prejudicando justamente os diabéticos que realmente necessitam do fármaco para sobreviver.
Ainda não há uma centralização de processos como nos EUA, mas o alerta está dado. O Conselho Brasileiro de Oftalmologia e a Sociedade Brasileira de Diabetes devem se posicionar sobre o tema, especialmente após a confirmação dos dados de Harvard.
Se você faz uso desses medicamentos, é essencial:
Manter acompanhamento multidisciplinar: Não basta apenas um endocrinologista. Inclua um oftalmologista de confiança no seu check-up regular.
Ficar atento aos sintomas: Qualquer alteração visual – embaçamento, perda de campo de visão, manchas escuras ou dor – deve ser comunicada imediatamente.
Evitar o uso "off-label" sem necessidade: Utilizar esses remédios apenas para perder aqueles quilinhos extras pode ser um risco desnecessário para a sua saúde.
A magia do emagrecimento rápido pode estar cobrando um preço que ninguém quer pagar: a visão. E agora, diante das evidências científicas e da enxurrada de processos, a pergunta que fica é: vale mesmo a pena?
A TVSaúde.Org continuará acompanhando de perto os desdobramentos desses processos nos EUA e as posições oficiais da Anvisa e do Ministério da Saúde sobre o tema no Brasil.