Remédios para emagrecer podem causar cegueira?

Publicado por: Feed News
12/03/2026 09:00:00
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Estudos apontam possível relação entre medicamentos GLP-1 e problemas oculares graves.
Estudos apontam possível relação entre medicamentos GLP-1 e problemas oculares graves.

Cegueira Irreversível: O Lado Sombrio dos Remédios da Moda para Emagrecer

 

Eles invadiram as redes sociais, viraram febre entre celebridades e são receitados como solução mágica para quem deseja perder peso rapidamente. Ozempic, Wegovy, Saxenda e Trulicity tornaram-se nomes conhecidos no Brasil e no mundo, sinônimos de revolução estética e controle do diabetes. Mas, por trás do sucesso de vendas, um cenário alarmante começa a se desenhar nos tribunais americanos: pacientes estão perdendo a visão e culpam exatamente esses medicamentos. 

O que era para ser uma ferramenta no combate à obesidade pode estar escondendo um efeito colateral devastador. Estamos falando de neuropatia óptica isquêmica, uma condição grave que interrompe o fluxo sanguíneo para o nervo do olho e pode resultar em cegueira permanente. E os números são assustadores.

 

Uma Epidemia Judicial

Nos Estados Unidos, a revolta dos pacientes chegou ao sistema judiciário. Mais de 70 processos foram abertos contra as gigantes farmacêuticas Novo Nordisk (fabricante do Ozempic e Wegovy) e Eli Lilly (produtora do Trulicity). A acusação é uníssona: as empresas não alertaram adequadamente sobre os riscos oculares.

 

Diante do volume de casos, a Justiça Federal americana tomou uma decisão rara e significativa: unificou todas as ações sob a responsabilidade de uma única juíza, Karen Marston. A medida, conhecida como processo multidistrital, é adotada em situações de emergência sanitária ou quando milhares de pessoas são afetadas por um mesmo produto, agilizando as investigações e julgamentos.

 

Mas por que tantas pessoas estão recorrendo à Justiça? A resposta está em um estudo recente realizado por pesquisadores da renomada Universidade de Harvard.

 

O Alerta de Harvard: Quatro Vezes Mais Risco

A pesquisa de Harvard acendeu o sinal vermelho na comunidade médica. Os cientistas descobriram que pacientes que utilizam agonistas GLP-1 – a classe química desses medicamentos – apresentaram quatro vezes mais diagnósticos de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterial (NOIAN) em comparação com usuários de outros tipos de medicação para diabetes.

Em termos simples: o risco de desenvolver uma doença que cega é quadruplicado. A NOIAN age como um "derrame" do olho. Quando o nervo óptico não recebe oxigênio suficiente, as células começam a morrer, e a visão se apaga, muitas vezes sem chance de recuperação.

 

A Paralisia do Estômago e a Morte no Reino Unido

Este não é o primeiro nem o único problema grave associado a esses medicanos. Antes mesmo das ações por cegueira, cerca de 3 mil processos já haviam sido centralizados acusando os laboratórios de negligência em relação à gastroparesia, popularmente conhecida como "paralisia do estômago". Nessa condição, o órgão perde a capacidade de se contrair e esvaziar, causando dores abdominais severas, vômitos e desnutrição.

O caso mais extremo, no entanto, ocorreu no Reino Unido. Uma mulher de 58 anos faleceu após usar injeções para obesidade. O laudo apontou falência múltipla dos órgãos, choque séptico e pancreatite – uma combinação letal que acende um alerta sobre os limites da segurança dessas substâncias quando usadas fora de controle rigoroso.

 

O Lado Oculto da "Canetinha"

Como esses medicamentos agem no corpo para causar algo tão distante como um problema nos olhos? A resposta é complexa e ainda está sendo estudada, mas os cientistas têm hipóteses.

Os agonistas GLP-1 são hormônios sintéticos que imitam uma substância natural do nosso corpo. Eles retardam a digestão, controlam o açúcar no sangue e induzem a saciedade. No entanto, a rápida perda de peso e as flutuações bruscas de glicose podem afetar a delicada vascularização do nervo óptico. É como se o organismo, ao mudar tão rápido, deixasse áreas nobres como os olhos sem o suprimento adequado de sangue.

 

O Que Dizem os Fabricantes?

Em documentos oficiais entregues à Justiça, tanto a Novo Nordisk quanto a Eli Lilly negam veementemente as acusações. As empresas afirmam que os medicamentos passaram por rigorosos testes clínicos e que a segurança dos pacientes é prioridade. No entanto, os bulários atualizados e os estudos pós-comercialização (chamados de farmacovigilância) são justamente para identificar efeitos raros que só aparecem quando o remédio é usado por milhões de pessoas.

 

E no Brasil? O Que a Anvisa e os Pacientes Devem Fazer?

No Brasil, Ozempic e seus similares também são amplamente vendidos, muitas vezes de forma indiscriminada em farmácias ou por prescrições estéticas sem o devido acompanhamento médico. A popularidade é tanta que o país enfrenta recorrentes crises de desabastecimento, prejudicando justamente os diabéticos que realmente necessitam do fármaco para sobreviver.

Ainda não há uma centralização de processos como nos EUA, mas o alerta está dado. O Conselho Brasileiro de Oftalmologia e a Sociedade Brasileira de Diabetes devem se posicionar sobre o tema, especialmente após a confirmação dos dados de Harvard.

 

Se você faz uso desses medicamentos, é essencial:

Manter acompanhamento multidisciplinar: Não basta apenas um endocrinologista. Inclua um oftalmologista de confiança no seu check-up regular.

 

Ficar atento aos sintomas: Qualquer alteração visual – embaçamento, perda de campo de visão, manchas escuras ou dor – deve ser comunicada imediatamente.

 

Evitar o uso "off-label" sem necessidade: Utilizar esses remédios apenas para perder aqueles quilinhos extras pode ser um risco desnecessário para a sua saúde.

 

A magia do emagrecimento rápido pode estar cobrando um preço que ninguém quer pagar: a visão. E agora, diante das evidências científicas e da enxurrada de processos, a pergunta que fica é: vale mesmo a pena?

 

A TVSaúde.Org continuará acompanhando de perto os desdobramentos desses processos nos EUA e as posições oficiais da Anvisa e do Ministério da Saúde sobre o tema no Brasil.

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