O remédio que pode levar à tragédia

Publicado por: Feed News
14/03/2026 20:00:00
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Ilustração Cortesia Editorial Ideia
Ilustração Cortesia Editorial Ideia

Alertas oficiais da FDA e da Health Canada existem há décadas: antidepressivos podem aumentar risco de suicídio e violência em algumas pessoas. Entenda o que é akathisia, o efeito colateral silencioso e mortal.

 

Você ou alguém próximo já tomou ou toma um antidepressivo? Provavelmente, a expectativa era uma só: alívio, acalmar a mente, voltar a sentir prazer nas coisas. Mas e se, em vez disso, o remédio provocasse o oposto? E se causasse uma agitação interna insuportável, pensamentos confusos ou até mesmo uma vontade incontrolável de se machucar ou machucar os outros?

Pode parecer contraditório, mas essa é uma realidade prevista, documentada e, muitas vezes, silenciada sobre os antidepressivos da classe dos ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina) , como Prozac (fluoxetina), Zoloft (sertralina) e Paxil (paroxetina).

Um dossiê recente, intitulado "Como os Antidepressivos ISRS Causam Suicídio, Homicídio e Massacres", do pesquisador David Carmichael, reúne décadas de evidências científicas, alertas de agências reguladoras e casos judiciais que expõem esse lado obscuro. Não se trata de negar a eficácia dos antidepressivos para muitas pessoas, mas de escancarar um fato que médicos e pacientes precisam conhecer: o risco de efeitos paradoxais e devastadores é real e, muitas vezes, omitido na hora da prescrição.

 

A Outra Face da Moeda: Quando o Remédio Vira Veneno

A bula é o documento mais importante de um medicamento. E, escondidas em suas páginas, as bulas dos ISRS trazem listas de efeitos colaterais que poucos leem ou são orientados a vigiar. Um exemplo contundente está na própria bula do Paxil (GlaxoSmithKline, 2007) , que lista como efeitos que afetam de 1 em cada 100 a 1 em cada 1.000 pacientes:

Pensamento anormal

Alucinações

Agitação

Hostilidade

Reação de mania

Despersonalização (sensação de estar fora do corpo)

Euforia

São exatamente esses os efeitos que, em situações extremas, podem criar uma tempestade perfeita para atos de violência ou suicídio. Mas como isso acontece no corpo e na mente?

 

Os Três Mecanismos da Tragédia

O psiquiatra e pesquisador Dr. David Healy, um dos maiores especialistas mundiais em farmacovigilância, aponta três efeitos colaterais específicos dos ISRS que podem desencadear essas reações extremas:

Akathisia: A Agonia em Movimento
É descrita como uma sensação insuportável de agitação interna e externa. A pessoa não consegue ficar parada, sente uma angústia motora profunda, um desejo incontrolável de andar, se mexer. É um estado de tormento físico e psicológico tão intenso que a ciência médica já o associou ao surgimento de ideação suicida e violência impulsiva. A pessoa quer, desesperadamente, que aquela agonia pare, e pode ver na violência (contra si ou contra outros) a única saída. Muitas vezes, a akathisia é confundida com ansiedade ou piora do quadro depressivo, levando o médico a aumentar a dose do remédio que está causando o problema, em vez de suspendê-lo.

 

Embotamento Afetivo: A Morte da Emoção
É a perda da capacidade de sentir emoções, tanto as negativas quanto as positivas. A pessoa se torna indiferente, apática, como um zumbi. Em casos extremos, esse "desligamento" emocional pode fazer com que atos de violência contra si ou contra outros sejam executados sem a barreira natural do medo, da culpa ou da empatia. A pessoa simplesmente não "sente" a gravidade do que está fazendo.

 

Delírio e Psicose: A Perda do Contato com a Realidade
Em alguns casos, os ISRS podem desencadear estados confusionais agudos (delírio) ou psicóticos, onde a pessoa perde a capacidade de distinguir o que é real do que não é. Surgem delírios (crenças falsas e fixas) e alucinações. Nesse estado de completa desconexão com a realidade, atos extremos podem ser cometidos. Um exemplo visual disso, citado no dossiê, é o caso de Angelynn Mock (página 29), que, supostamente sob efeito de medicamentos, aparece em uma audiência judicial com uma expressão vazia e embotada, após ser acusada de matar a própria mãe.

 

O Que Dizem as Agências Reguladoras?

É crucial entender que isso não é teoria da conspiração. As principais agências reguladoras do mundo alertam sobre isso há décadas.

Em outubro de 2004, a FDA (EUA) emitiu um alerta em caixa alta ("black box warning"), o mais severo para um medicamento em uso:

"Antidepressivos aumentaram o risco comparado ao placebo de pensamentos e comportamentos suicidas (suicidalidade) em crianças, adolescentes e adultos jovens em estudos de curto prazo para transtorno depressivo maior e outras desordens psiquiátricas."

Na mesma linha, em junho de 2004, o Health Canada alertou:

"O Health Canada está aconselhando os canadenses que os Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (ISRS) e outros antidepressivos mais novos agora trazem advertências mais fortes. Estas novas advertências indicam que pacientes de todas as idades tomando estes medicamentos podem experimentar mudanças comportamentais e/ou emocionais que podem colocá-los em risco aumentado de auto-agressão ou de agressão a outros."

O alerta canadense é ainda mais específico: fala em "risco aumentado... de agressão a outros".

 

Por Que Isso Ainda é um Tabu?

Se os alertas existem, por que a maioria das pessoas desconhece esse risco? O dossiê aponta algumas razões:

A indústria minimiza os dados: Quando um efeito colateral raro, mas grave, acontece, a indústria farmacêutica frequentemente o classifica como "anedótico" ou "correlação, não causalidade", mesmo quando os mecanismos biológicos são claros (como no caso da akathisia).

 

Falta de consentimento informado: A maioria dos pacientes recebe a prescrição sem uma discussão aprofundada sobre esses riscos específicos. Um estudo de 2023 mostrou que médicos raramente avisam sobre a possibilidade de efeitos paradoxais como agitação ou hostilidade.

 

Medo do estigma: Falar que um remédio psiquiátrico pode causar violência é um tema profundamente delicado. Há o receio de que isso aumente o estigma contra as doenças mentais e contra quem faz uso de medicamentos.

 

O Que Fazer? Um Guia para Pacientes e Familiares

O conhecimento é a melhor ferramenta de proteção. Se você ou alguém próximo vai iniciar o uso de um ISRS (ou já está usando), fique atento:

Vigie os primeiros dias e semanas: O risco é maior no início do tratamento ou quando há mudança de dose.

Conheça a akathisia: Fique alerta a sinais de agitação motora intensa, sensação de "não se aguentar na pele", necessidade incontrolável de andar de um lado para o outro, combinada com angústia profunda. Isso é uma emergência médica.

Observe mudanças de comportamento: Irritabilidade extrema, hostilidade, agressividade, isolamento súbito, ou, paradoxalmente, uma calma irreal e "estranha" após um período de sofrimento.

Mude o pensamento sobre "piora": Se a pessoa parecer "pior" nos primeiros dias, não assuma automaticamente que é a doença. Pode ser o remédio.

Converse imediatamente com o médico: Diante de qualquer sinal de alerta, contate o psiquiatra ou clínico. A conduta pode ser reduzir a dose ou trocar o medicamento. Nunca suspenda o remédio bruscamente por conta própria.

Reporte o efeito: Se você suspeitar de uma reação adversa grave, notifique-a à Anvisa através do sistema Notivisa. Sua notificação pode salvar vidas no futuro.

 

A jornada do tratamento para a depressão é desafiadora. Ela exige coragem, acolhimento e, acima de tudo, informação completa e transparente. Esconder os riscos em nome de uma falsa sensação de segurança é condenar pacientes a tragédias que poderiam ser evitadas. Como alerta o dossiê de Carmichael, a ciência já provou o risco. Agora, é preciso que a informação chegue a quem mais precisa: você.

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