Apesar da vacina contra o HPV existir há décadas, o Brasil ainda registra 25 mortes evitáveis por dia. Entenda por que o Norte e o Nordeste são os mais afetados e como quebrar esse ciclo.
O Dado que Assusta
Enquanto o mundo celebra a possibilidade de eliminar o câncer de colo de útero como um problema de saúde pública, o Brasil vive uma realidade paradoxal. Dados atualizados do Ministério da Saúde revelam uma ferida aberta na saúde pública: quase 800 mulheres morrem por mês — o equivalente a 25 vidas perdidas diariamente — por uma doença que tem cura, vacina e métodos de rastreamento simples.
O mais estarrecedor não é apenas o número, mas onde essas mortes acontecem. A taxa de incidência na região Norte (22,79 casos por 100 mil habitantes) transforma a região em um epicentro de uma tragédia silenciosa.
A sensação de que "nada mudou" em quase 50 anos é um grito de alerta para a falência da equidade no sistema de saúde. Não faltam tecnologias. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece o exame preventivo (Papanicolau) e a vacina contra o HPV (disponível para meninos e meninas de 9 a 14 anos).
O que falta é acesso e oportunidade. No Norte e Nordeste, as barreiras são estruturais:
O Atraso no Rastreamento: Em áreas ribeirinhas, quilombolas ou periferias distantes dos centros urbanos, a mulher enfrenta horas de deslocamento para chegar a uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Muitas vezes, ao chegar, o exame não está disponível ou o horário de funcionamento conflita com a jornada de trabalho.
A Barreira Cultural e o Tabu: O exame preventivo ainda é visto por muitas como algo invasivo e vergonhoso. A falta de agentes comunitários de saúde capacitados para desfazer mitos faz com que muitas mulheres adiem o exame até o surgimento dos sintomas — momento em que o câncer já está avançado.
A Descontinuidade do Tratamento: Detectar uma lesão precursora não basta se a mulher não consegue o tratamento. A colposcopia (exame que vê o colo do útero com lentes de aumento) e a cauterização das lesões são chamadas de "tratamento de feridas". Quando a rede de atenção secundária é falha, a mulher se perde no sistema, e a lesão que poderia ser tratada em minutos evolui para um câncer invasivo em poucos anos.
A mulher que morre por câncer de colo de útero no Brasil hoje é, majoritariamente, pobre, preta, com baixa escolaridade e residente nas regiões Norte ou Nordeste. Não se trata de uma fatalidade genética, mas sim de um reflexo da negligência estrutural. Ela foi excluída do ciclo de prevenção seja por falta de informação, falta de transporte, ou porque não conseguiu uma vaga para tratar uma simples "alteração no preventivo" a tempo.
Para os leitores da TV Saúde, o alerta deve ser traduzido em ação. A eliminação dessa doença no Brasil depende de três pilares, que você pode cobrar e praticar:
Vacinação em Massa (9 a 14 anos): É a única forma de eliminar a infecção pelo HPV nas próximas gerações. Se você tem filhos ou conhece adolescentes, a mensagem é clara: vacinar contra o HPV é vacinar contra o câncer. As doses estão disponíveis nos postos de saúde. Não há desculpa para a baixa cobertura vacinal.
Rastreamento Oportuno (25 a 64 anos): Não basta fazer o exame. É preciso fazê-lo no intervalo correto (a cada 3 anos após dois exames anuais normais) e, principalmente, buscar o resultado. A mulher não pode sair da UBS sem saber quando volta. Se houver atraso no resultado, a cobrança deve ser imediata.
Teste Molecular do HPV: O SUS já oferece em alguns locais o teste de DNA-HPV, que é mais preciso e pode ser feito em intervalos maiores. É fundamental que a sociedade pressione gestores estaduais e municipais para que essa tecnologia substitua ou complemente o Papanicolau nas regiões de difícil acesso, otimizando o tempo das equipes de saúde.
O câncer de colo de útero é um indicador cruel de justiça social. Enquanto no Sul e Sudeste as taxas caem graças ao acesso facilitado, no Norte e Nordeste ele continua matando como nos anos 80. Não podemos normalizar 25 mortes por dia.
A informação é o primeiro passo para quebrar o ciclo. Compartilhe este texto. Leve a mensagem para a UBS mais próxima. Cobre as agentes de saúde. A diferença entre uma vida e uma morte por essa doença é, na maioria das vezes, um exame feito no momento certo.