Cuidar de idoso com câncer no Brasil: o manual que nenhuma família leu

Publicado por: Feed News
20/05/2026 14:00:00
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Às vezes, o melhor tratamento não está na ampola – está na mão que não solta a sua durante a quimioterapia.
Às vezes, o melhor tratamento não está na ampola – está na mão que não solta a sua durante a quimioterapia.

Proteger idoso não é controlar. Mas abandonar também não é cuidado. Existe um caminho possível – e ele começa com uma escuta honesta.

 

Por Ronny Santos ( Redação Local / Araraquara-SP)

 

O oposto do controle não é o abandono. É o cuidado respeitoso. E ele pode salvar vidas.

O artigo do Estadão denunciou algo essencial: proteger demais um idoso pode se tornar controle, aprisionamento e violência simbólica. Uma filha que decide pelo pai sem consultá-lo. Um médico que fala com a cuidadora ignorando o paciente. Isso existe e é grave.

 

Mas no Brasil real – especialmente nas salas de quimioterapia do SUS, nas unidades básicas de saúde da periferia e nos lares onde o idoso vive sozinho – o problema inverso é ainda mais mortal: o vazio absoluto.

 

A senhora de Araraquara não sofria de excesso de cuidado. Ela sofria de sua falta total. E, infelizmente, esse é o retrato da maioria dos idosos com câncer avançado no país.

 

O que fazer, então?

1. Separar o joio do trigo: nem todo idoso precisa de controle, mas todo idoso precisa de presença.
O Estatuto do Idoso garante autonomia. Mas autonomia sem vínculo é solidão legalizada. Profissionais de saúde precisam perguntar não apenas “como estão suas dores?”, mas “quem vem com você às consultas?”, “você se sente sozinho?”, “tem alguém em quem confiar?”.

 

2. Ensinar famílias a cuidar sem sufocar e sem sumir.
O medo do câncer paralisa. Muitos familiares se afastam por não saberem o que fazer – não por maldade, mas por despreparo. O SUS precisa oferecer grupos de apoio psicoeducativo para familiares de pacientes oncológicos. Um espaço para dizer: “É normal ter medo. Mas sumir piora o prognóstico. Aqui está o que você pode fazer de verdade.”

 

3. Reconhecer a desesperança como sintoma clínico.
Quando um idoso com câncer diz “não tenho interesse pela vida”, isso não é “falta de força de vontade”. É um sintoma tão importante quanto febre ou queda de plaquetas. Precisa ser registrado no prontuário, investigado por psicologia e assistência social, e tratado – com escuta, presença e, quando indicado, medicamentos.

 

4. Criar protocolos de visita afetiva em serviços de oncologia.
Hospitais e clínicas de quimioterapia deveriam ter um profissional – enfermeiro, assistente social ou voluntário treinado – responsável por identificar pacientes isolados e oferecer escuta ativa. Às vezes, 10 minutos de conversa genuína dobram a adesão ao tratamento.

 

5. Responsabilizar legalmente o abandono familiar quando houver dano à saúde.
O artigo 98 do Estatuto do Idoso já prevê punição para quem abandona idoso em situação de risco. O problema é que raramente se aplica a casos de abandono emocional durante tratamento de câncer. Precisamos de jurisprudência e conscientização: deixar de visitar, deixar de acompanhar, deixar de apoiar psicologicamente um idoso com metástase é negligência.

 

A senhora de Araraquara já havia desistido. Mas muitos outros ainda não. E cada profissional de saúde que lê este artigo pode ser a diferença entre uma quimioterapia suportada e uma morte solitária.

 

Cuidar não é controlar – e o artigo do Estadão está certo nisso. Mas também é verdade que não cuidar é matar.

 

O SUS precisa de mais humanização, mais escuta e mais coragem para nomear o abandono pelo que ele é: uma epidemia silenciosa dentro da oncologia brasileira.

 

Nota final da redação TVSaúde.Org:
Este conteúdo foi baseado em relato real ocorrido em Araraquara/SP. A identidade da paciente foi preservada por respeito e sigilo ético. A reprodução é permitida desde que citada a fonte e mantido o contexto original de humanização do cuidado.

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