O câncer não matou a vontade de viver dela – a família sim

Publicado por: Feed News
20/05/2026 20:00:00
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Ela ainda tinha metástase, mas ainda tinha vontade. O que a fez desistir foi a cadeira ao lado sempre vazia.
Ela ainda tinha metástase, mas ainda tinha vontade. O que a fez desistir foi a cadeira ao lado sempre vazia.

Abandono familiar no tratamento oncológico não é omissão – é violência silenciosa. E ele mata mais rápido que muitos tumores.

 

Por Ronny Santos ( Redação Local / Araraquara-SP)

Ela não desistiu da vida por causa da metástase. Ela desistiu por causa da ausência.

Recentemente, em uma sala de quimioterapia de Araraquara (SP), uma senhora com metástase disse algo que deveria parar o país: “Não tenho interesse pela vida.”

 

Não foi a dor. Não foi o cansaço. Não foi o tumor. Foi o abandono. A família que, ao saber do câncer, entrou em desespero – não para acolher, mas para desaparecer. E ela, sozinha, com os olhos cheios de lágrimas, já não via razão para reunir forças, mudar a alimentação ou fazer exercícios.

 

O que parece um drama pessoal é, na verdade, um padrão nacional.

 

Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e estudos em oncologia psicossocial mostram que pacientes idosos com diagnóstico de câncer avançado têm até 3 vezes mais risco de depressão grave quando percebem afastamento familiar. E a depressão, nesse contexto, reduz a eficácia da quimioterapia, aumenta a percepção de dor e acelera a progressão da doença.

 

Mas os números, por si só, não emocionam. O que emociona – e o que a senhora de Araraquara nos ensina – é isto: cuidar do corpo sem cuidar do vínculo não é tratamento. É técnica fria.

 

O artigo do jornal O Estado de S. Paulo, “Cuidar não é controlar”, acertou ao denunciar o cuidado que aprisiona. Mas ele não falou do lado oposto – e mais comum no Brasil: o cuidado que nunca acontece. Não há controle porque nunca houve presença.

 

Enquanto isso, no SUS, profissionais de saúde assistem, impotentes, a pacientes que chegam sozinhos, assinam termos de responsabilidade sozinhos e morrem – muitas vezes – com a ficha da última quimioterapia em uma mão e o número do filho que não atende na outra.

 

A senhora de Araraquara ainda respirava quando você a aconselhou. Mas já havia morrido por dentro. E a causa do óbito, se houvesse um atestado para a alma, seria uma só: abandono familiar.

 

Precisamos parar de chamar isso de “família desestruturada”. Isso é violência. E violência no tratamento oncológico deveria ser notificada como dano moral grave – ou, em casos extremos, como negligência no Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03).

 

Porque, sejamos claros: há tumores que a quimioterapia não alcança. E um deles se chama solidão.

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