O Estatuto do Idoso agora pune com mais rigor o abandono. Mas a lei, sozinha, não cura a dor de quem se sente descartado.
Por Ronny Santos ( TV Saúde/ Redação SP)
O câncer não matou a vontade de viver dela. A família sim.
Esta frase, dura e impactante, não é um título sensacionalista. É o resumo da história real de uma paciente oncológica em Araraquara (SP), que, em meio a uma sessão de quimioterapia, confessou: "Não tenho interesse pela vida." Não foi o tumor que a fez desistir. Foi a ausência. O silêncio. O abandono familiar.
Este não é um caso isolado. É um padrão nacional que se repete nos corredores de hospitais e lares por todo o Brasil. Enquanto alguns, como nosso leitor Marcio, dedicam sua vida a cuidar de um ente querido com amor e renúncia , outros simplesmente somem, deixando o paciente enfrentar sozinho a dor, o medo e a esperança de um tratamento.
O relato de Marcio, que acompanha sua mãe no tratamento de leucemia, é o retrato do cuidador familiar que se doa por inteiro. Ele abre mão do trabalho, do lazer e do descanso movido pela gratidão e pelo amor . É a face nobre e necessária do cuidado.
No entanto, a história da senhora de Araraquara revela a face sombria: o abandono como forma de violência. Dados do INCA e estudos em oncologia psicossocial mostram que pacientes idosos com câncer que percebem o afastamento da família têm até 3 vezes mais risco de depressão grave. E a depressão, nesse contexto, reduz a eficácia da quimioterapia, aumenta a percepção de dor e acelera a progressão da doença .
Não se trata de "família desestruturada". Trata-se de negligência. Uma violência silenciosa que, como bem define o artigo original, "mata mais rápido que muitos tumores".
Em julho de 2025, entrou em vigor a Lei 15.163, que aumenta significativamente as penas para o crime de abandono de idoso ou pessoa com deficiência. A pena, que antes era de 6 meses a 3 anos, agora pode chegar a 5 anos de reclusão, e em caso de morte, a 14 anos .
A lei é um avanço crucial. Ela reconhece o abandono não como um simples descuido, mas como um crime com consequências gravíssimas . No entanto, a lei, por si só, não constrói pontes. Ela pune, mas não acolhe. Ela coage, mas não gera o afeto que a alma humana precisa para seguir em frente.
A senhora de Araraquara não precisava de uma pena para seus filhos. Ela precisava de uma visita. De um abraço. De saber que não estava sozinha.
A resposta para esse problema complexo não está apenas na punição, mas na prevenção e no suporte. A boa notícia é que o Brasil está começando a acordar para a necessidade de "cuidar de quem cuida" .
A Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), por exemplo, disponibiliza o programa iSupport, da OMS, um treinamento online gratuito para cuidadores de pessoas com demência . Iniciativas como grupos de apoio no WhatsApp e em unidades básicas de saúde têm se mostrado fundamentais para aliviar a sobrecarga do acompanhante, oferecendo um espaço para desabafo e troca de experiências .
Cuidar de um familiar doente é uma tarefa árdua e solitária. Mas negligenciar a saúde mental do cuidador é o primeiro passo para o esgotamento e, em casos extremos, para o próprio abandono.
As histórias de Marcio e da senhora de Araraquara são duas faces da mesma moeda. Uma mostra a força do vínculo que cura. A outra, a dor do vínculo que se rompe.
Precisamos parar de tratar o tratamento oncológico como um processo puramente técnico. Cuidar do corpo sem cuidar da alma e dos laços que sustentam o paciente não é tratamento. É uma técnica fria e, muitas vezes, ineficaz.
O cuidado é o maior remédio. E ele precisa vir de casa, da família, da sociedade. Se você conhece alguém que está sozinho nessa jornada, estenda a mão. Sua presença pode ser a diferença entre a desistência e a vontade de viver.
Opinião do Especialista:
"O abandono familiar durante o tratamento oncológico é uma das formas mais cruéis de violência contra o idoso. Ele compromete não apenas a saúde emocional do paciente, mas também sua resposta biológica ao tratamento, pois o estresse e a depressão impactam diretamente o sistema imunológico. A nova lei é um passo importante, mas o verdadeiro desafio é construirmos uma cultura de cuidado e responsabilidade afetiva. O paciente precisa se sentir acolhido e parte de uma rede de apoio para que o tratamento tenha sucesso."
Dra. Ana Paula Camargo, Geriatra e Coordenadora do Comitê de Cuidados Paliativos da SBGG.
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