O remédio que não pode faltar: entenda o papel da Ciclofosfamida no tratamento do câncer

Publicado por: Feed News
27/04/2026 22:00:00
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A ciclofosfamida é peça-chave em protocolos como o VCD, essencial para pacientes com mieloma múltiplo no SUS.
A ciclofosfamida é peça-chave em protocolos como o VCD, essencial para pacientes com mieloma múltiplo no SUS.

Sem a ciclofosfamida, tratamento contra mieloma múltiplo perde eficácia. Entenda por que esse medicamento clássico segue indispensável na oncologia brasileira.

 

O que acontece quando um dos três pilares de um tratamento contra o câncer ameaça desaparecer?

A resposta é simples: o tratamento fica mais fraco. E foi exatamente esse o risco que o Brasil enfrentou recentemente com a ciclofosfamida, um dos medicamentos mais antigos e essenciais da quimioterapia.

A ameaça de desabastecimento foi evitada pela compra emergencial do governo federal, mas a situação levantou uma questão importante: por que um medicamento criado nos anos 1950 continua sendo tão indispensável em pleno 2026?

 

A ciclofosfamida: uma veterana que segue em campo

A ciclofosfamida é um agente alquilante, uma classe de medicamentos que age danificando o DNA das células que se dividem rapidamente — exatamente o que as células cancerosas fazem . Aprovada pelo FDA ainda em 1959, a substância nunca saiu de moda na oncologia .

Diferente de terapias mais novas e caras, a ciclofosfamida combina três qualidades que a mantêm relevante:

 

Eficácia comprovada por décadas de uso clínico

Baixo custo em comparação com alternativas mais recentes

Versatilidade no tratamento de diferentes tipos de câncer

 

O protocolo VCD: uma combinação poderosa

Quando falamos em mieloma múltiplo — um tipo de câncer que afeta as células plasmáticas do sangue —, a ciclofosfamida entra em cena ao lado de dois outros medicamentos: bortezomibe e dexametasona .

O esquema é conhecido como VCD ou CyBorD, e funciona assim :

 
 
Medicamento Dose Via Dias de administração
Bortezomibe 1,3 mg/m² Subcutânea 1, 8, 15 e 22
Ciclofosfamida 300 mg/m² ou 500 mg Oral ou IV 1, 8, 15 e 22
Dexametasona 40 mg/dia Oral 1, 8, 15 e 22

Ciclo completo se repete a cada 28 dias 

Cada componente tem seu papel nessa coreografia terapêutica:

 

bortezomibe é o inibidor de proteassoma — bloqueia a "reciclagem" de proteínas dentro da célula doente

ciclofosfamida danifica o DNA das células cancerosas

dexametasona é o corticoide que potencializa os dois e tem efeito direto contra o tumor

 

O que acontece sem a ciclofosfamida?

Se a ciclofosfamida faltar, o protocolo VCD vira apenas "VD" — bortezomibe e dexametasona. E estudos mostram que o esquema triplo é superior ao duplo em termos de resposta ao tratamento.

Em outras palavras: sem a ciclofosfamida, o tratamento fica menos potente. Menos chance de resposta completa. Menos chance de remissão duradoura.

 

Por que não substituir por outro remédio?

Existem alternativas, como o esquema VLD (bortezomibe, lenalidomida e dexametasona). Mas a troca não é simples:

 

Custo: a lenalidomida é significativamente mais cara que a ciclofosfamida

Rim: pacientes com insuficiência renal — complicação comum no mieloma — se beneficiam mais do VCD

Acesso: a ciclofosfamida está disponível em praticamente todos os serviços de oncologia do país

 

Efeitos colaterais: o lado difícil do tratamento

O protocolo VCD não é leve. Os efeitos colaterais são importantes e precisam ser monitorados :

 

Da ciclofosfamida:

Queda de cabelo (alopécia)

Náuseas e vômitos

Queda das defesas do sangue (leucopenia, neutropenia)

Alterações nas unhas

 

Do bortezomibe:

Fadiga intensa

Formigamento em mãos e pés (neuropatia)

Queda de pressão

Falta de ar

 

Da dexametasona:

Inchaço no rosto e pernas

Alterações na glicemia (especialmente em diabéticos)

Insônia e agitação

Aumento do apetite

 

Cuidados essenciais para pacientes

Para quem está fazendo o tratamento com ciclofosfamida oral, algumas orientações são fundamentais :

 

Hidratação: beber bastante água nos dias de uso para proteger a bexiga

Urinar com frequência: ajuda a eliminar o medicamento sem lesionar a bexiga

Armazenamento: manter na geladeira, dentro da caixa de isopor com gelo, longe de alimentos e crianças

Higiene: lavar as mãos após manusear os comprimidos

Descarte: blisters vazios devem ser devolvidos ao hospital para descarte correto

 

O que significa para o paciente brasileiro?

A garantia do abastecimento da ciclofosfamida não é um detalhe técnico. É a diferença entre um tratamento completo e um tratamento capado. Entre uma chance real de resposta e uma terapia de segunda linha.

E para o paciente com mieloma múltiplo que também tem problemas renais — uma parcela significativa dessa população —, a ciclofosfamida não é apenas uma opção. É frequentemente a única opção viável e segura.

 

Por fim, a ciclofosfamida pode ser uma veterana, mas segue em campo como titular absoluta. O risco de desabastecimento que o Brasil enfrentou recentemente acendeu um alerta: medicamentos clássicos, de baixo custo e alta eficácia não podem ser negligenciados.

Por décadas de serviço à oncologia mundial, a ciclofosfamida segue salvando vidas — e os pacientes brasileiros não podem ficar sem ela.

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