Cientistas apresentam a maior esperança para tumores de cabeça e pescoço resistentes.
Método inovador da Johnson & Johnson pode ser o futuro da oncologia no SUS.
Pesquisa internacional impressiona ao fazer tumores desaparecerem em 15 pacientes sem opções. Entenda como essa "virada de chave" pode chegar ao Brasil e revolucionar o tratamento oncológico.
Para milhões de brasileiros, ouvir que o câncer de cabeça e pescoço se espalhou ou deixou de responder à quimioterapia soa como uma sentença. A dor ao engolir, a dificuldade para falar e o emagrecimento extremo viram uma rotina devastadora. Mas um estudo global, que será apresentado na maior conferência de oncologia do mundo (Asco), acaba de abrir uma janela de esperança que a comunidade médica classifica como "impressionante".
Cientistas testaram uma injeção chamada Amivantamabe em 102 pacientes de 11 países — todos com câncer agressivo de cabeça e pescoço que já havia recaído ou se espalhado, e que não respondiam mais aos tratamentos convencionais. O resultado surpreendeu até os pesquisadores mais experientes.
Em 28 pacientes, os tumores encolheram drasticamente.
Em 15 pacientes, os sinais do câncer simplesmente desapareceram.
Diferente da quimioterapia tradicional, que age como uma "bomba" destruindo células boas e ruins, o Amivantamabe é uma biópsia líquida em forma de remédio. Ele entra no corpo com uma estratégia tripla:
Bloqueia o crescimento: Impede o receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR), a proteína que ordena o tumor a aumentar de tamanho.
Fecha a porta de fuga: Intercepta a via MET, o "atalho" que as células cancerígenas usam para se tornarem resistentes à quimioterapia e imunoterapia.
Ativa o exército interno: Reforça o sistema imunológico do próprio paciente para que ele reconheça e ataque as células malignas restantes.
É como se o medicamento cortasse os cabos de energia do tumor, trancasse todas as saídas de emergência e ainda chamasse a polícia (seus anticorpos) para fazer a limpeza final.
A adaptação para a realidade do Brasil é o ponto mais promissor. Atualmente, tratamentos de ponta para câncer resistente são caríssimos, geralmente intravenosos, exigem internação ou centros de infusão sofisticados e causam efeitos colaterais severos.
O Amivantamabe, no entanto, é revolucionário por um motivo prático: é uma injeção subcutânea (sob a pele).
Isso significa que, em vez de passar horas numa maca tomando soro, o paciente pode receber a aplicação em poucos minutos em um ambulatório, ou até — futuramente — em casa. É mais rápido, mais confortável e, crucialmente, muito mais barato de administrar. O custo logístico reduzido é um forte argumento para que, se aprovado pela Anvisa, ele possa um dia integrar o rol de medicamentos do SUS.
Entre os voluntários do estudo está Carl Walsh, 56 anos, que vivia o pesadelo que muitos pacientes brasileiros conhecem bem. Ele não conseguia falar no trabalho, a dor impedia a fala e a alimentação se resumia a sopas e omeletes. Ele perdeu peso drasticamente.
"Apenas dois ciclos de tratamento e minha alimentação começou a voltar ao normal. Seis meses depois, comi meu primeiro bife grande. Minha voz voltou", celebrou Carl. A sobrevida média desses pacientes, que já não tinham mais opções, foi de 12,5 meses — um número extraordinário dado o prognóstico terrível que tinham.
O medicamento, desenvolvido pela Johnson & Johnson, ainda está em fase de estudos. A boa notícia é que a eficácia do Amivantamabe está sendo testada em cerca de 60 outras pesquisas clínicas, focadas não apenas em cabeça e pescoço, mas também nos cânceres de pulmão, colorretal, cérebro e estômago.
O professor Kevin Harrington, do Institute of Cancer Research, em Londres, resume o sentimento da comunidade médica: "Esta é uma resposta incrivelmente forte para pacientes cujas opções são extremamente limitadas. É impressionante ver esse nível de benefício."
A ciência ainda não venceu totalmente o câncer, mas está cada vez mais perto de transformá-lo em uma doença crônica controlável — ou de fazer com que tumores antes incuráveis simplesmente desapareçam.
Para o paciente brasileiro que se sente sem saída, a mensagem é clara: não desistam. A medicina está a caminho. Novos protocolos que aliam inteligência biológica e praticidade (injeções ao invés de quimioterapias debilitantes) estão na última milha da pesquisa.
Manteremos a TVSaude.Org atenta à data em que o Amivantamabe chegará à Anvisa e às negociações com o Ministério da Saúde.
Nota da redação: Este artigo foi desenvolvido com base em dados preliminares do estudo internacional apresentado à American Society of Clinical Oncology (Asco). A TVSaude.Org continuará monitorando a publicação final dos resultados em periódicos revisados por pares e os desdobramentos para a regulamentação no Brasil.